Saúde Mental na Universidade: Sobreviver (e Crescer) nos Anos Mais Intensos
A universidade é simultaneamente uma das fases mais estimulantes e mais exigentes da vida. Aprende a navegar a pressão académica, a solidão, e a construção de identidade.
A universidade é apresentada culturalmente como os melhores anos da vida: independência, descoberta, amizades para sempre, crescimento. E para muitas pessoas é isso mesmo. E ao mesmo tempo, é uma das fases com maior vulnerabilidade à saúde mental de toda a vida adulta.
Em Portugal, quase metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos reportou sintomas de ansiedade, burnout ou depressão nos últimos 12 meses. Muitos destes jovens são estudantes universitários. E a maioria não procura apoio, seja por estigma, por desconhecimento dos recursos disponíveis, ou pela crença de que o que sentem é apenas a dureza normal de ser jovem adulto.
O que torna a universidade particularmente exigente para a saúde mental
A transição simultânea em múltiplas dimensões
A entrada na universidade raramente é apenas uma transição académica. É frequentemente também: saída de casa pela primeira vez, construção de novas redes sociais do zero, gestão de finanças pessoais, construção de identidade adulta independente, e exposição a um nível de exigência académica significativamente superior ao do secundário.
Cada uma destas transições seria exigente individualmente. A maioria dos estudantes universitários enfrenta várias em simultâneo.
A pressão de desempenho sem rede de segurança familiar
No secundário, havia uma rede de suporte próxima: família, professores que conheciam o estudante há anos, colegas de longa data. Na universidade, esta rede não existe automaticamente. E o desempenho académico determina o futuro de formas que antes não acontecia.
Esta combinação de maior exigência com menor suporte é uma das condições mais geradoras de ansiedade que existem.
A construção de identidade sob pressão
A universidade é o período em que muitas pessoas constroem ativamente a sua identidade adulta: os seus valores, o seu lugar no mundo, o que querem fazer com a vida. Este processo é naturalmente confuso e desconfortável. Mas acontece sob pressão de desempenho e frequentemente sem muito espaço para a incerteza.
A comparação social amplificada
Pela primeira vez, muitos estudantes estão rodeados de pessoas com níveis de habilidade semelhantes ou superiores aos seus. O que no secundário era destaque pode tornar-se mediano numa faculdade competitiva. Esta reconfiguração do lugar na hierarquia de desempenho pode ser desestabilizante para a autoestima.
Os desafios específicos mais comuns
Ansiedade de avaliação e síndrome do impostor
Exames, apresentações, trabalhos com pesos significativos na nota final: os estudantes universitários vivem num estado de avaliação quase contínua. A ansiedade de performance e o síndrome do impostor são extraordinariamente comuns e raramente nomeados como tal.
A solidão da chegada
Os primeiros meses na universidade são frequentemente os mais solitários. As amizades do secundário ficaram para trás. As novas ainda não foram construídas. E há uma pressão implícita de que se devia estar a divertir-se imenso, o que torna a solidão ainda mais difícil de admitir.
A relação com o álcool e outras substâncias
A cultura universitária em Portugal, como em muitos países, usa o álcool como lubricante social de forma extensiva. Para estudantes com ansiedade social, o álcool pode tornar-se progressivamente uma estratégia de regulação emocional que cria dependência sem que o processo seja visível.
A perda de estrutura
Muitos estudantes, especialmente os que saem de casa pela primeira vez, experienciam uma perda de estrutura que afeta o sono, a alimentação, e o exercício de formas que têm impacto real na saúde mental. A liberdade de não ter horários impostos pode criar desorientação antes de criar autonomia.
O que ajuda
Usar os recursos disponíveis na universidade
A maioria das universidades portuguesas tem serviço de psicologia gratuito para estudantes. Muitas têm também grupos de apoio, tutoria académica, e programas de bem-estar. Estes recursos existem e são subaproveitados. Procurá-los não é sinal de fraqueza: é inteligência.
Construir rotina básica deliberadamente
A estrutura que a família ou a escola proporcionavam automaticamente precisa agora de ser construída de forma deliberada: horários regulares de sono, refeições, e algum movimento físico. Esta rotina básica é o que mantém o sistema nervoso mais estável em períodos de alta exigência.
Criar conexão gradualmente, sem pressa
As amizades universitárias profundas não surgem nas primeiras semanas. Surgem de contacto repetido ao longo do tempo, de momentos de vulnerabilidade partilhada, de projetos comuns. Dar-te permissão para que este processo seja gradual, sem sentires que falhaste por não teres ainda o grupo que esperavas, é importante.
Nomear o que sentes sem o minimizar
"É apenas a pressão da faculdade" minimiza o que pode ser sofrimento real que merece atenção. Nomear que estás a lutar, seja com ansiedade, com solidão, com a sensação de não pertenceres, é o primeiro passo para encontrar apoio.
Próximo passo
Escolhe o teu próximo passo para cuidar da tua saúde mental.
A AcalmaMe não substitui acompanhamento profissional de saúde mental. Em caso de crise, contacta a Linha de Apoio à Saúde Mental: 808 24 24 24 (gratuita, disponível 24 horas).