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Luto: Como Atravessar uma das Experiências Mais Difíceis da Vida

Relacionamentos10 min de leitura

O luto não segue as etapas que aprendeste. É mais caótico, mais não-linear, e mais individual. Aprende o que realmente acontece e o que ajuda a atravessá-lo.

O modelo das cinco etapas do luto de Elisabeth Kübler-Ross é provavelmente o mais famoso da psicologia. E é também um dos mais mal-entendidos. Kübler-Ross não descreveu o luto como um processo linear com etapas sequenciais. Descreveu estados que as pessoas frequentemente experienciam, de forma não ordenada, com avanços e recuos, e de forma altamente individual.

O problema é que a versão popular criou uma expectativa: deves passar por estas etapas em ordem, e quando chegares à "aceitação" o luto estará resolvido. Esta expectativa é tanto incorreta como prejudicial para quem está a atravessar uma perda real.

O que o luto realmente é

O luto é a resposta a uma perda. Não apenas à morte de uma pessoa próxima, embora esse seja o contexto mais óbvio. O luto existe também na perda de um relacionamento, de um trabalho, de uma identidade, de um sonho que não se realizou, de uma versão de ti mesmo, de saúde, de capacidade, ou de um futuro que imaginavas.

A intensidade do luto não está sempre correlacionada com a "importância objetiva" da perda. Está correlacionada com o significado que a perda tem para a pessoa específica que a experiencia.

O que a investigação moderna diz sobre o luto

A investigação dos últimos vinte anos mudou significativamente a compreensão do luto.

O psicólogo George Bonanno descobriu que a maioria das pessoas é mais resiliente após perdas do que os modelos anteriores sugeriam. A maioria não desenvolve luto prolongado ou complicado. A maioria consegue funcionar relativamente bem, mesmo enquanto sente a perda de forma intensa.

Ao mesmo tempo, há uma percentagem significativa de pessoas que desenvolve o chamado luto prolongado ou complicado: um estado onde o luto permanece intenso e debilitante por um período muito mais longo do que o expectável, e que interfere significativamente com o funcionamento. Esta condição responde bem a tratamento especializado.

Frases comuns

"trabalho de luto"

"trabalhar o luto ativamente"

O não é uma obrigação. A ideia de que tens de ou de que te tornará mais vulnerável se não o fizeres não tem suporte científico robusto. Algumas pessoas processam a perda através de expressão emocional ativa. Outras processam de forma mais cognitiva, ou através de distração temporária, e isso é igualmente válido.

O que ajuda no luto

Dares-te permissão para sentir

Não há forma certa de sentir durante o luto. Podes estar triste e ao mesmo tempo aliviado (especialmente após perda de alguém que sofria). Podes estar em negação um dia e devastado no dia seguinte. Podes rir em momentos inapropriados. Podes não conseguir chorar quando esperavas conseguir. Todas estas respostas são normais.

Manter alguma estrutura

A estrutura básica, refeições, sono, movimento, serve de âncora durante um período onde tudo o resto pode sentir-se fora do controlo. Não tem de ser mais do que o mínimo. Mas o mínimo tem valor.

Aceitar o apoio que existe

O luto tende a isolar as pessoas, tanto porque a dor é paralisante como porque as pessoas ao redor muitas vezes não sabem o que dizer e acabam por se afastar. Aceitar o apoio que existe, mesmo que imperfeito, é importante.

Não ter pressa para "superar"

O luto tem o seu próprio ritmo. Datas específicas (aniversários, datas comemorativas, a data da perda) frequentemente trazem recrudescimentos da dor mesmo muito tempo depois. Estes momentos não são regressões. São parte do processo.

Procurar apoio profissional se necessário

Se o luto está a ser incapacitante passados vários meses, se há pensamentos de morte ou de autolesão, ou se o funcionamento diário está significativamente comprometido, o apoio de um psicólogo especializado em luto é o passo mais importante.

Uma nota sobre a linguagem do luto

Frases comuns

"Ele não foi embora, está sempre no teu coração."

"O tempo cura tudo."

"Ele estaria feliz por ver-te assim."

Estas frases pretendem ajudar. Frequentemente não ajudam. O que mais as pessoas em luto precisam não é de perspetiva ou de consolo, é de presença e de espaço para sentir o que sentem.

"Tenho muito pena. Estou aqui." É frequentemente o mais poderoso que podes dizer.

Próximo passo

Escolhe o teu próximo passo para cuidar da tua saúde mental.

A AcalmaMe não substitui acompanhamento profissional de saúde mental. Em caso de crise, contacta a Linha de Apoio à Saúde Mental: 808 24 24 24 (gratuita, disponível 24 horas).